"Jesus gosta que convivamos com Ele como um filho com o seu pai". (Beata Maria do Divino Coração)

Chamo-as pelo seu nome | A vocação é obra de Deus, não mérito próprio.


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“A Luz ao fundo do túnel”.

 Na semana passada, durante um encontro de dinamização bíblica, na Missão Católica de Língua Portuguesa, em Genebra, onde me encontro, um dos participantes lançou-me um desafio que me deixou um pouco surpreendida e embaraça:

-“Irmã conte-nos como descobriu a sua vocação religiosa?”.

Ultrapassada a surpresa da proposta, decidi partilhar aquilo que não é mérito próprio, mas acção do Espírito Santo. É curioso que também a Redação da revista Irmã Maria me tenha feito o mesmo desafio, horas depois. Eis a razão pela qual, recuando 44 anos no tempo, vou tentar por no papel aquilo que vivi de forma muito intensa.

 

Sou a quarta filha de uma família de cinco irmãos. Nasci numa aldeia pequena e simples, na ilha de S. Miguel, Açores. Aí, todos sabiam tudo acerca de todos. Foi nesse ambiente são e centrado nos valores cristãos que vivi a minha infância e juventude, brincando e convivendo com as minhas amigas e, por vezes, “sonhando” com ideais mais elevados. Recordo que aos 16 anos, em plena adolescência, fiz uma confidência à minha mãe: -“ Mãe eu gostava muito de ser freira”. Minha mãe olhou para mim e, muito serenamente, disse-me: -“Sabes filha, isso são coisas próprias da tua idade, vais ver que, com o tempo, isso passa”. Minha mãe disse que passava e eu acreditei. Aparentemente passou. Continuei a fazer a minha vida normal como as outras jovens da minha idade. Lembro-me de ter seguido pela rádio, os episódios da vida de S. Francisco Xavier que avivou em mim o ideal missionário. Nunca perdia também a transmissão, pela rádio, dos dias doze e treze em Fátima, os extratos da vida da Jacinta, com o seu ardor pela conversão dos pecadores e da do Francisco com o seu amor a “Jesus escondido”, emocionavam-me e despertavam em mim o desejo de ser missionária e me deixavam muito pensativa. Mas, essa época dos grandes sonhos e, ideais também passou, ou melhor, deixou-os abafados por outros interesses próprios duma jovem normal de 18 anos que também sonha em constituir uma família e dá largas ao sentido da maternidade.

Durante dois anos fiz uma experiência de namoro. Com o consentimento e aceitação recíproca da família dos dois lados já se avizinhava a altura do matrimónio, mas eis que o que estava abafado, por graça de Deus voltou ao de cima, como o azeite na água, sem que eu nada tivesse feito para isso, a não ser, por curiosidade ter ido ouvir uma religiosa do Bom Pastor, que veio falar às jovens sobre a vocação à vida consagrada. Eu sabia que já não seria esse o meu caso, pois tinha a vida orientada numa outra direção, mas mesmo assim fiquei à porta da sacristia enquanto a religiosa falava e cantava. Não sei explicar bem como, mas o inesperado surgiu: Entrei em crise interior. Não sabia o que se passava comigo, nessa mesma noite já não consegui dormir e muitas outras se seguiram do mesmo modo, nessa mesma situação. No segredo do meu quarto, chorava e rezava à procura de uma decisão muito difícil: Prosseguir o caminho que estava traçado (o matrimónio) ou deixar tudo e consagrar a vida a Deus? Vivi esta noite escura durante algum tempo, na solidão interior, sem partilhar com ninguém. Durante o dia, no convívio com as pessoas, não sentia tanto, mas logo que fechava a porta do meu quarto, entrava como que num túnel escuro sem saída. Muitos questionamentos se me apresentavam e um vendaval de dúvidas, como uma tempestade, se desencadeava dentro de mim: Que fazer? Que futuro Deus me teria reservado? Porquê essa inquietação que me roubava a paz? Sofria e rezava em silêncio, sem conseguir ver claro o que fazer.

Um dia, recordo como se tivesse acontecido há momentos, estando a arranjar o quarto dos meus pais, levantei os olhos e cruzei o meu olhar com o ”olhar de Maria”, através dum belíssimo quadro pendurado na parede, representando o Seu Coração Imaculado. Impelida por um impulso interior muito forte, ajoelhei e rezei, mais com o coração do que com as palavras, a súplica era evidente: Força e luz para uma decisão acertada, de acordo com os desígnios de Deus. E, verdadeiramente, a luz surgiu no fundo do túnel! Passados alguns momentos, pus-me de pé e a angústia desapareceu, dando lugar a uma força estranha que me levou a ver com clareza que fazer-me religiosa era o caminho! … Ainda hoje me surpreendo com a mudança que se operou em mim! Uma tal determinação e coragem, só poderia vir do Espírito Santo, foi Ele o meu director espiritual, pois não tinha outro: Jesus me chamava a deixar tudo para O seguir mais de perto (cf. Mt 19,21). Já não tinha dúvidas, nem medo de enfrentar fosse o que fosse…  

No final da narração, após uns momentos de silêncio, a mesma pessoa que me tinha feito o desafio, colocou outra questão pertinente: -“Irmã, durante todos esses anos, nunca pensou em abandonar essa vida? “.

A minha resposta foi imediata: Não, nunca! Pelo contrário, encontro sempre motivos para louvar e agradecer a Deus, pelo dom da vocação religiosa e por me ter oferecido uma família espiritual, na Congregação do Bom Pastor. Aí fiz a formação, durante três anos na casa de Ermesinde. Antes de me comprometer com os votos religiosos, segundo a nova abertura dada pelo Vaticano II, fui enviada a visitar a família, sem o ter pedido. Recordo que foi um momento muito intenso de reconciliação, sobretudo com o meu pai, que me tinha dito: - “Podes ir para o convento, tens 21 anos, não te posso impedir, mas fica sabendo que, para mim, a minha filha morreu!” Palavras bem difíceis de assimilar. Mas tudo passou e ele agora estava feliz. Eu prossegui com a formação até aos votos perpétuos, estudando e trabalhando junto das jovens em risco que, em regime de internato, habitavam nas nossas instituições, realizando assim a maternidade, de forma espiritual e bem real. Pude também tornar realidade o meu sonho de ser missionária, pois mesmo sem que eu inicialmente o soubesse, vim a descobrir que a Congregação dava oportunidade, às irmãs que o desejassem de ir trabalhar nas missões ad gentes. Foi assim que vivi, em duas etapas, 14 anos em Angola e 3 anos em Moçambique.

Depois de vários anos em Portugal, vivendo o Carisma da misericórdia e trabalhando no apostolado da Congregação, fui enviada para a Suíça, onde tenho oportunidade de fazer uma boa experiencia missionária, diferente da anterior, mas também muito enriquecedora, junto dos nossos emigrantes portugueses, integrada na Missão Católica de Língua Portuguesa, em Genebra.

Só me resta dirigir um grande “Merci” ao nosso Bom Deus e a todos aqueles que, de qualquer modo, me ajudaram nesta caminhada. Bem-hajam…


   

 Ir. Antonieta Sousa.

 



25 de Maio de 2013

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