"O Senhor é meu Pastor, nada me pode faltar! " (Salmo 23)

Chamo-as pelo seu nome | Deus nunca falha na hora em que mais precisamos


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Filomena nasceu na Lomba de Santa Bárbara da Ribeira Grande, na Ilha de S. Miguel. É a segunda de 5 irmãos, sendo dois rapazes e 3 meninas.

 

Por volta dos 9 anos foi convidada a fazer companhia a uma familiar de uma jovem que tinha entrado na Congregação do Bom Pastor. Era uma família vizinha e por isso os pais permitiram que Filomena ficasse interna naquela casa. Naquele lar o tema das conversas andava à volta da vida do convento, ao ponto de encher de curiosidade a menina Filomena.

 

A jovem tinha deixado a ilha porque o noviciado era em Gaia, no Porto, no entanto, aquela família de vez em quando gostava de visitar as Irmãs do Bom Pastor que tinham uma casa no Livramento, para saber notícias da filha. Filomena quase fazia parte daquela família e por isso acompanhava-os para todo o lado e também nestas visitas. Foi aí que conheceu algumas Irmãs e era sempre uma alegria visitá-las.

 

Entretanto, a mãe começou achar que Filomena estava tempo demais em casa desta vizinha e impôs regras, pois a filha era muito nova e precisava de criar raízes na família.

Mais tarde, a convite do irmão mais velho que trabalhava num café em Ponta Delgada, Filomena vai trabalhar como empregada interna para a casa dos patrões deste. Era uma família muito religiosa e Filomena acompanhava-os sempre na Eucaristia diária bem como na prática de outras devoções. Foi aí que se preparou para o sacramento do Crisma, convidando a patroa para sua madrinha.

 

Passado algum tempo, começou a visitar a sua família aos fins-de-semana. Num destes fins-de-semana enamorou-se de um jovem mais velho do que ela 4 anos. Comunicavam-se por carta e encontravam-se semanalmente. A família do rapaz, estava quase toda no Canadá e depois de cumprir o serviço militar era esse o destino que o esperava. Filomena começou numa luta interior, pois não estava muito interessada em separar-se da família, mas ao mesmo tempo gostava do rapaz.

 

Andava ela numa grande indecisão quando soube que a tal jovem que tinha ido para o convento, tinha sido enviada como superiora para a casa do Bom Pastor em S. Miguel. Sem perder tempo a pensar, foi logo visitar aquela Irmã para se aconselhar sobre o que fazer da sua vida. Enquanto esperava na sala de visitas, deparou-se com um grande quadro da Irmã Maria do Divino Coração que então era Venerável. Interessou-se em saber mais sobre a vida daquela religiosa e percebeu que havia um movimento a pedir graças para obter um milagre para a Beatificação da Ir. Maria. A partir daí outra inquietação surgiu.

 

Era verdade que gostava daquele jovem e há muitos anos que namoravam, mas cada vez que pensava no casamento, dedicar a vida a um homem e a meia dúzia de filhos, o seu coração se entristecia. Por outro lado, sempre que ia ao Bom Pastor, sentia muita alegria ao ver como as Irmãs dedicavam a sua vida àquelas jovens. Começou a pensar que também ela poderia ajudar naquele trabalho que considerava tão bonito. Mas como? Deixar o namorado de quem tanto gostava? Separar-se dos pais e dos irmãos para ir para o convento? Se antes a dúvida era casar e ir para o Canadá, agora a dúvida tornou-se numa angústia. Que fazer?

 

Abriu o seu coração à superiora do Bom Pastor, mas esta com receio de a influenciar porque antes eram amigas, aconselhou-a a conversar com o seu irmão padre que se encontrava de passagem por S. Miguel. Aquele encontro foi muito esclarecedor mas a decisão cabia a Filomena. Colocar-se diante do Senhor e pedir força e luz para seguir o Seu chamamento era o mais importante naquele momento. Depois, pedir coragem para dizer ao jovem que o seu caminho não era o casamento.

 

Chegou por fim o dia em que Filomena explicou ao namorado que gostava muito dele mas a sua vocação era a vida religiosa. Apesar desta notícia dolorosa, a reacção do rapaz foi muito compreensiva. Disse-lhe com lágrimas nos olhos: “Se fosse para me trocares por outro homem eu jamais aceitaria, mas como é por Alguém Superior, eu compreendo”. Conta Filomena que foi uma luta tão grande e choraram muito os dois, mas a decisão estava tomada e ao mesmo tempo sentia paz.

Ao completar os 21 anos deu entrada na vida religiosa, deixando para trás os pais e os irmãos que tanto amava e de quem tanto temia separar-se. Ainda lhe passou pela cabeça que poderia entrar noutras Congregações que lá existiam e assim não ter que deixar a ilha, mas as jovens fragilizadas e o Bom Pastor enchiam o seu coração.

 

Já na vida religiosa fez o curso de educadora e pensava: Para quê este curso se não vou trabalhar com crianças pequenas?”. Mas enganou-se, pois mais tarde foi enviada para a Casa de Sant’Ana, uma Instituição para mulheres e seus filhos, e ali percebeu que tudo o que se aprende ao longo da vida, nos irá servir em algum momento. Refere Filomena com um olhar expressivo que foi uma Missão que lhe encheu as medidas. A sua vida estava ao serviço do Bom Pastor na pessoa dos pobres. Naquela altura a casa vivia da Providência e a burocracia da Segurança Social não tinha lá lugar. Nunca foi necessário rejeitar nenhum pedido de acolhimento e havia sempre um cantinho para mais alguém que aparecesse a qualquer hora. Assistia-se a “milagres” ao vivo todos os dias, sobretudo naqueles momentos em que a comida era escassa para tanta gente, mas na hora certa aparecia alguém a bater à porta a trazer comida de algum lado.  

 

Numa destas vezes em que não havia nada em casa e as Irmãs estavam preocupadas porque estava quase na hora do almoço e era preciso dar de comer a mais de 50 pessoas, aparece lá uma carrinha do Colégio Vasco da Gama com um grande tacho de comida porque tinha havido lá uma festa e não sabiam o que fazer com tanta fartura.

 

Outro episódio marcante, foi num dia 24 de Abril, festa de Santa Maria Eufrásia. Não havia fruta nenhuma em casa e muito menos dinheiro para a comprar. Aparece uma carrinha aberta com muitas caixas de bananas que tinham sido apreendidas.

Bendito seja Deus por tudo! Ficam muitas histórias por contar, mas vividas com intensidade, com o selo da dor, mas também com alegria de quem sabe que Deus nunca falha na hora em que mais precisamos. 

 

Rosário Oliveira



12 de Julho de 2011

11 comentários

Lurdes , 04-Ago-2011 16:08:04
Gostei de ler os vários comentários feitos à cerca do testemunho da Ir. Vitórias. Ainda bem que as pessoas vão ficando esclarecidas acerca dos motivos que nos traz à vida Religiosa! Se não fosse sómente por Cristo, como passar uma vida a educar os filhos dos outros, a andar de lado para lado! E sempre feliz e bem dispostas? Vale apena tudo deixar e seguir Aquele que é o Amigo de todas as horas e que nunca falta! Obrigada Ir. Filomena! Lurdes

Diana Correia, 03-Ago-2011 13:08:56
Ola irmã Vitórias! A sua história de vida é repleta de momentos corajosos e enriquecedores como o amor que viveu pelo jovem rapaz. A descoberta aos 21 anos da vocação pela vida religiosa, tem concerteza a recompensa da gratidão das pessoas que ajuda, que ama e a quem dedica a sua energia. Tem uma personalidade forte e marcante, dificilmente esquecida por quem a conhece. Obrigada e Parabéns.

Paulo Jorge, 29-Jul-2011 00:07:59
Esta história dos padres serem casados resolver o problema dos escandalos não me parece boa ideia. Se fosse isso, então porque é que os homens casados continuam a dar escandalos?

Teresa Costa, 27-Jul-2011 23:07:28
Quero acrescentar ao que disse o João Pedro que acho que os padres deviam casar, assim não havia tantos escandalos por este mundo fora. Ou então muitos padres não estão no sitio certo.

Paulo Jorge , 25-Jul-2011 00:07:52
Vê-se logo que o José António não percebe muito de vida consagrada. Eu também não percebo muito mas não penso da mesma maneira. Ainda bem que temos alguém a rezar por nós pois acredito que a oração tem muita força, apesar de saber que as irmãs não estão sempre a rezar e trabalham para o seu sustento.

José António, 25-Jul-2011 00:07:42
Eu também penso um pouco como a Sara. Para que serve a vida de um freira fechada num convento. A desta História parece que não era fechada porque ajudava muitas pessoas pobres, mas há aquelas que estão sempre no convento e nunca saiem de lá. Para mim isto é um desperdício de vida e acho que Deus não quer isso.

Carla Sofia, 23-Jul-2011 01:07:21
Quero dizer à Sara que conheço religiosas que não são nada chatas e até são bem divertidas. Estou num grupo de jovens da Paróquia da Galinheira e gosto muito da irmã que nos acompanha. Não considero que a vida dela seja inútil, até pelo contrário.

João Pedro - Porto, 23-Jul-2011 01:07:05
Acho que deve haver de tudo como em todo o lado. Há pessoas felizes e outras nem por isso. Penso que muitas pessoas estão na vida religiosa e não têm vocação, assim como muitos padres. E muita gente está casada mas também não é feliz. Isto de ser feliz é muito relativo.

Sara - Matosinhos, 22-Jul-2011 00:07:01
Também li esta história e até acho interessante. Mas às vezes penso que a vida de uma freira é uma vida inútil e chata. Ter que ir à missa e rezar todos os dias as mesmas coisas e estar sempre com as mesmas freiras, eu acho que não aguentava. Mas respeito quem aguenta...

Rosário, 20-Jul-2011 00:07:59
Olá Maria Rosa! Concordo consigo, pois este testemunho vem confirmar que o Senhor chama quem quer e quando quer. Hoje é impensável que uma jovem entre ou persevere na vida religiosa se não tiver vocação para tal. A vida religiosa não é nenhum refúgio para pessoas frustradas. É sim, uma resposta ao Chamamento do Senhor para desempenhar uma Missão. Se alguém está na vida religiosa e não se sente feliz, certamente não é aí o seu lugar. Deus chama-nos para sermos felizes, em qualquer vocação, estado de vida, ou em qualquer lugar. Por isso, Deus nunca chama ninguém por causa de um desgosto. Talvez isso acontecesse na idade Média, mas actualmente não. Ao dispor, Ir. Rosário










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