"Uma pessoa vale mais que o mundo" (Santa Maria Eufrásia)

Nota Pastoral

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião do 150.º aniversário do nascimento da Beata Maria do Divino Coração

 

 

1. A Irmã Maria do Divino Coração nasceu na Alemanha, em Münster, a 8 de setembro de 1863. Seus pais eram os condes Droste zu Vischering, profundamente religiosos, vivendo no castelo de Darfeld. Aos 25 anos, sentiu um forte apelo para seguir a vida de consagração religiosa: «Tens de entrar no convento do Bom Pastor». Assim, a 10 de janeiro de 1889, toma o hábito religioso no convento de Münster, em feliz coincidência com o que aconteceu no mesmo dia, no Carmelo de Lisieux, a Teresa do Menino Jesus.

A Irmã Maria do Divino Coração foi enviada em missão para Portugal, tendo chegado ao Porto, como Superiora do Recolhimento do Bom Pastor, na Rua de Vale Formoso, Paranhos, a 17 de maio de 1894. Aqui se dedicou, de alma e coração, ao serviço de largas dezenas de jovens, entregues aos cuidados da sua Congregação, em tempos de grandes dificuldades materiais, perfeitamente integrada na sua nova pátria: «Sinto‑me tão portuguesa, que não me importo com tanto desconforto, tanto frio e tanta humidade». Acometida por uma dolorosa e prolongada doença, partiu para a vida eterna no dia 8 de junho de 1899, no início do tríduo de preparação para a consagração do mundo ao Coração de Jesus, feita pelo Papa, correspondendo ao seu expresso pedido. O seu corpo está exposto à veneração dos fiéis na Igreja do Coração de Jesus, em Ermesinde, junto à Casa das Irmãs do Bom Pastor.

O testemunho da sua vida, centrada no amor do Coração de Jesus Cristo e das pessoas que serviu com heroica generosidade, continua vivo e atual. Queremos seguir o que nos recomenda a Congregação para a Doutrina da Fé: “Os Santos e Beatos são autênticas testemunhas da fé. Portanto, será oportuno que as Conferências Episcopais se empenhem em difundir o conhecimento dos Santos do próprio território” (1). O Papa Bento XVI assim nos exorta, ao convocar a Igreja para a celebração do Ano da Fé: «Pela fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver, em simplicidade evangélica, a obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma ação em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4, 18‑19)»(2).

 

2. A Irmã Maria do Divino Coração foi declarada Beata pelo Papa Paulo VI, a 1 de novembro do Ano Santo de 1975. Não tendo havido na altura uma declaração conjunta do episcopado a este propósito, queremos aproveitar a celebração dos 150 anos do seu nascimento, para apresentar, sucintamente, algumas linhas mestras da sua espiritualidade.

A vida da Beata Maria do Divino Coração, centrada em Jesus e no amor do seu coração, estimula-nos a chamar a atenção para esta nossa irmã na fé, como instrumento de Deus e verdadeira evangelizadora, modelo para todos de uma entrega radical a Cristo e à sua Igreja. Ela viveu estas duas paixões: Jesus e os pobres, especialmente as jovens por quem tanto trabalhou, com dedicação total, apaixonada pelo desejo de amar sempre mais e melhor.

O nome que assumiu como religiosa da Congregação do Bom Pastor, Irmã Maria do Divino Coração, foi um programa de vida. Facto deveras relevante na sua missão foi o pedido que dirigiu a Leão XIII, transmitindo o desejo que recebeu do Senhor Jesus, para que o Papa consagrasse o mundo ao seu Coração Divino. Este Papa, que ficou mais conhecido pela sua intervenção no campo social, com a publicação da Encíclica Rerum novarum, marco miliário da doutrina social da Igreja, deu a mais alta classificação a este gesto profético. Num encontro que teve com os pais da Irmã Maria do Divino Coração, em Roma, anunciou que, devido aos pedidos de sua filha que vivia no Porto, ia realizar «o ato mais grandioso de todo o meu Pontificado»: a Consagração do género humano ao Coração de Jesus Cristo. A Irmã Maria foi o instrumento providencial de Deus para levar o Papa Leão XIII a realizar este ato solene, que teve lugar a 11 de junho de 1899, anunciado duas semanas antes pela Encíclica Annum Sacrum.

O nosso atual Papa tem recomendado que centremos o nosso coração no Coração de Jesus Cristo, a fim de vivermos a cumprir o mandamento do amor. «Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom (...), deve ele próprio beber incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo, de cujo coração trespassado brota o amor de Deus» (3). Por ocasião do cinquentenário da Encíclica Haurietis aquas, sobre o culto ao Coração de Jesus, do Papa Pio XII, assim adverte Bento XVI: «O convite a entregar‑se totalmente ao amor salvífico de Cristo e a consagrar‑se a Ele tem, portanto, como primeira finalidade a relação com Deus. Eis porque este culto, totalmente dirigido ao amor de Deus, que se entrega em sacrifício por nós, é de tão insubstituível importância para a nossa fé e para a nossa vida no amor» (4).

 

3. Celebrar os 150 anos do nascimento da Beata Maria do Divino Coração, no presente contexto da vida em Portugal, deve ser para todos um apelo:

– a viver centrados no amor de Jesus, a «porta da fé» (At 14, 27), procurando passar, particularmente este Ano de Fé, cumprindo o que nos pede o apóstolo Pedro: «confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança» (1 Pe 3, 15);

– a rezar e sacrificar‑se pelos sacerdotes, imitando a Irmã Maria, para que vivam, em fidelidade santa, a sua vocação e missão apostólica. Cabe-lhe o grande mérito de ter inspirado a fundação do Pontifício Colégio Português de Roma, onde se têm formado múltiplas gerações de sacerdotes, desde há mais de cem anos.

– a cultivar um amor sincero e dedicado à Igreja, especialmente ao Papa, no acolhimento dos seus ensinamentos e exortações. Assim nos relata: «Desde a mais tenra idade, senti a dita de ser filha da Santa Igreja»;

- a praticar o serviço aos pobres e marginalizados, seguindo exemplo de quem entregou a sua vida à reabilitação integral da mulher;

– a progredir no «amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento» (Ef 3, 19), pela pedagogia da devoção ao Coração de Jesus, pois «só o coração de Cristo, que conhece a profundidade do amor do Pai, pôde revelar‑nos o abismo da sua misericórdia, de um modo tão cheio de simplicidade e beleza» (5);

– a colocarmos no centro das nossas vidas a Eucaristia celebrada, comungada e adorada. Foi num contexto eucarístico que a Irmã Maria recebeu grandes graças do Coração de Deus: «Nunca pude separar a devoção ao Coração de Jesus da devoção ao Santíssimo Sacramento; e nunca serei capaz de explicar como e quanto o Sagrado Coração de Jesus se dignou favorecer-me no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. O Santíssimo Sacramento foi sempre para mim um céu».

 

4. Que a celebração do 150.º aniversário do nascimento da Beata Maria do Divino Coração possa ser um fogo de zelo apostólico que ateie outros fogos, que nos centre a todos no amor ao Coração de Jesus, no serviço do Reino e da Igreja de Cristo, na oração e solicitude pelas vocações sacerdotais e pela santificação dos sacerdotes, num empenho muito concreto em servir os mais pobres e marginalizados do nosso tempo.

Unamo-nos em oração para que, em breve, alcancemos a graça da sua canonização. Desejamos que a Vida Consagrada em geral, particularmente a Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, na qual a Irmã Maria entregou generosamente a sua vida, possa experimentar «a conveniente renovação», como pede o Concílio Vaticano II, do qual estamos a celebrar o 50.º aniversário da sua abertura, e o dom de muitas vocações.

 

Fátima, 15 de novembro de 2012

 

NOTAS

1 -Congregação para a Doutrina da Fé, Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé (2012.01.06), n. II.5.

2 -Bento XVI, Carta Apostólica «Porta Fidei» (2011.10.11), n. 13.

3 -Bento XVI, Carta Encíclica «Deus caritas est», n. 7.

4 -Bento XVI, Carta de 15 de maio de 2006, no 50.º aniversário da Encíclica «Haurietis aquas».

5 -Catecismo da Igreja Católica, n. 1439.

 

Natal do Menino Rei

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Uma vez mais nos é dado viver o mistério do Natal.

Natal, mistério profundo que assume novas dimensões cada vez que o celebramos, assim os nossos corações estejam despertos e abertos aos valores do espírito, convictos de que celebramos o nascimento de um rei sem coroa, sem canções reais e sem desfile para os súbditos, mas com um propósito celestial: libertar e salvar o seu povo e todos aqueles que de coração humilde e generoso decidirem segui-Lo.

 

Uma vez mais nos é dado contemplar o mistério do Natal.

Ali, no lugar mas improvável para falar de realeza: num estábulo. Ali, no lugar de servos e escravos, numa noite linda de céu brilhante, ajoelhados diante da mais humilde das manjedouras, - o “trono” que o mundo dá ao Deus Menino -, José e Maria, os primeiros adoradores contemplam aquela criancinha de olhos cerrados, adormecida, igual a tantas crianças recém-nascidas. Porém, Aquele Menino “é Aquele que é eterno e cuja natureza divina não conhece mudança”, como canta o Ofício Divino. É o Deus que toma a natureza humana, é o “Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”!

 

Uma vez mais nos é dado saborear o mistério do Natal.

Os pastores atónitos e simultaneamente entusiasmados com a comunicação feita pelos Anjos do nascimento do Salvador, apressam-se, de coração pobre como as suas vidas e generoso como o de todos aqueles que se contentam com pouco, a procurar o rei e libertador prometido, e encontram um Rei que contra todas as expectativas Judaicas está reclinado numa manjedoura um Rei que se fez pobre e humilde como eles, um Rei que lhes aquece e enternece os corações, um Rei que lhes reaviva a esperança, um Rei que lhes oferece valores de eternidade.

 

Uma vez mais nos é dado Celebrar o mistério do Natal.

Celebrar o Natal é descobrir, na pequenez e na pobreza do presépio, a grandeza e a riqueza do amor divino. É perceber a lição de humildade que Cristo nos veio ensinar. É optar pelo caminho que Ele nos veio mostrar. É acolher com sinceridade as verdades que Ele nos veio comunicar, vivendo-as no nosso dia a dia. É assumir o compromisso com as causas do Evangelho, lutando em defesa da vida, colocando-nos ao lado dos pobres, excluídos e injustiçados. É, a exemplo de Jesus Cristo, ser um sinal de contradição na sociedade, buscando a construção da justiça, da paz e da fraternidade e tudo isto feito numa atitude de pobreza, humildade e simplicidade que são os grandes sinais do Menino Rei e do seu Reino que não sendo embora deste mundo, está já no meio de nós.


Festejemos, alegremo-nos, mas principalmente “amemos o Menino de Belém, tornemo-nos semelhantes ao Menino de Belém”, como nos ensina São Bernardo. Que também para nós ressoem alegres e altissonantes as palavras dos anjos aos pastores: “Anuncio-vos uma grande alegria. Hoje nasceu para vós o Salvador!”

 

 

BOAS FESTAS, SANTO E FELIZ NATAL PARA TODOS VÓS!

 

 

                                                                                                                                         Alexandrina Dutra

 

 

BEATA MARIA DO DIVINO CORAÇÃO

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A Bem-aventurada Maria do Divino Coração, condessa Droste zu Vischering, nasceu em Münster, na Alemanha, a 8 de Setembro de 1863. Formada no culto da virtude e no amor à Santa Igreja, sentiu-se chamada à vida de consagração total a Deus no apostolado.

Na idade de 25 anos entrou para a Congregação do Bom Pastor. Enviada para Portugal em 1894 e nomeada Superiora da casa do Bom Pastor no Porto, foi incrível a actividade que desenvolveu a bem das pessoas, no meio de uma dolorosíssima doença com que o Senhor a experimentou. Sofrendo alegre, vivia só para Deus e para os irmãos.

Confidente do Coração de Jesus, foi por Ele encarregada de promover a Consagração do Género humano ao Seu Divino Coração; essa Consagração realizou-a Leão XIII, que a considerou: “o acto mais grandioso de todo o meu Pontificado”.

Finalmente, cumprida a sua missão, voou para Aquele Coração que escolhera como morada. Foi no dia 8 de Junho de 1899.

Objecto de veneração dos fiéis, que por sua intercessão junto de Deus têm obtido inúmeros favores, a autoridade eclesiástica introduziu a sua Causa que foi culminada com a Beatificação no Ano santo de 1975.

QUEM FOI SANTA MARIA EUFRÁSIA?

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Maria Eufrásia, nascida a 31 de Julho de 1796, em França, foi uma mulher que se realizou plenamente. Simplesmente aproveitou bem o dom da Vida!

Aos 18 anos tinha o seu projecto definido: consagrar a sua vida a Deus no serviço dos irmãos.

Aos 21 anos faz o seu compromisso público, e a partir daí o seu amor por Deus e a sua dedicação ao próximo, não fizeram mais que crescer dia a dia, num desafio contínuo entre a contemplação e a acção. Esta estendeu-se para além da França, pelas fronteiras da Europa, cruzando os mares e oceanos, dos Andes aos Himalaias.

Com as suas numerosas companheiras e amigas foi abrindo casas aqui e além, sempre em resposta aos numerosos apelos que lhe eram feitos, para acolher jovens e mulheres em situações difíceis; devolver-lhes a paz e a confiança, para aceitarem o Amor salvífico de Deus, era o objectivo de todo o seu dinamismo.  

Em 1868, na hora da partida no termo da sua vida nesta terra, deixava abertas 110 Casas, em pleno florescimento. Desoladas mas confiantes as suas companheiras continuaram comprometidas no mesmo ideal que a tinha feito feliz: "A GLÓRIA DE DEUS E A FELICIDADE DOS IRMÃOS".

Pio XII, a 2 de Maio de 1940, inscreve-a no Catálogo dos Santos, enchendo de júbilo os corações da grande família do Bom Pastor.

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